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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Half the sky


Este post sofreu um comentário desagradável por parte de alguém que não se identificou devidamente. Resolvi apagar o comentário, porque não há mal que me derrube.
Reformulei o artigo que tinha escrito e aqui está de novo, bem mais curto e sempre com a mulher no centro da notícia...todos precisamos lutar para que situações de exclusão e de morte por honra, as chibatadas em público não mais aconteçam.
Não podemos deixar que se escondam por trás de tradições ou costumes, se estas estão erradas.
Nas Maldivas, uma menina de 15 anos que foi  vítima de violação,  tem uma pena para cumprir de 150 chicotadas em público. Informando a comunidade, fazendo  e  assinando petições, lutando no terreno, podemos ajudar a mudar o que está mal.
"Se você educar um homem, mudará uma pessoa; 
se educar uma mulher, mudará uma comunidade"

Essa frase me fez lembrar do livro Half the Sky (Metade do Céu), que aborda exactamente essa questão: a importância de educar as mulheres e como, ainda hoje, elas ocupam um lugar secundário e inexpressivo em muitos lugares do mundo, em muitas comunidades.  São vítimas da violência doméstica e sexual, impedidas de frequentar escolas, trabalhar e até mesmo,  colocadas em segundo plano no próprio  núcleo familiar. Em alguns países, numa casa onde há pouca comida, alimenta-se primeiro o filho homem, depois a menina. Isso sem falar nos inúmeros casos que envolvem a prática da morte em nome da honra.
Meninas e mulheres, vítimas de violação, são assassinadas por membros da família em nome da honra. 
Half the Sky tenta mostrar-nos a realidade,  e faz-nos sair da nossa zona de conforto.  

Quando li este livro fazia um ano de  pós graduação na Universidade Clássica de Lisboa. A grande lição que o livro nos ensina é que pelos nossos mais pequenos gestos, pela nossa não indiferença,  podemos ir salvando o mundo, uma mulher de cada vez. Por isso lhe peço, não fique indiferente, leia e seja mais uma pessoa a ajudar quem precisa.

Compre o livro, leia, medite e depois visite o site : http://www.halftheskymovement.org/

Não fique indiferente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aparição, de Vergílio Ferreira

" Pela última vez, durmo na casa do Alto. É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas. Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos. Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razâo sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa? A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.

Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas. Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...

Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita."