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terça-feira, 11 de março de 2014

vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à espera

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assim, hoje ao acordar fiquei aterrado ao ver que de noite me rolara para o meio da cama. deitei-me como sempre do meu lado, para deixar livre o teu no caso de resolveres voltar e te deitares nele. mas o sono levou-me para o sítio que é o bom e fica à minha esquerda. porque é que eu me passei para o meio da cama? e só acho uma como resposta o teres morrido para sempre. e fiquei horrorizado da minha libertação. não vás ainda. volta de novo. vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à espera. vem de noite sem eu dar conta e acordar contigo ainda no teu sono e tocar-te e seres tu.
 

Vergílio Ferreira

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Cartas a Sandra

Mais um autor com pelo menos um alter-ego. Vergílio Ferreira nunca ultrapassou a morte da mulher a quem tanto amava e passou a viver à espera do fim, como uma inevitabilidade, como fim previsto e até ansiado.
Paulo (alter-ego do autor) passa os últimos dias da sua velhice escrevendo cartas a Sandra, esposa há muito falecida, recordando a sua vida em comum bem como a sua relação com Xana, a filha que muito cedo abandonou a casa de família. É um testemunho pungente,  desesperado, de um homem apaixonado a quem faltou vida para desafiar a morte da mulher amada. Para Paulo o tempo terminara na morte de Sandra. Todavia, para além desse facto ficou o amor, este  perdurou para lá morte de Sandra, mas com uma dor pungente no coração, da qual o autor não mais se conseguiu afastar, ela permanece lá e vai cada dia ficando mais funda, mais cravada no seu coração. À procura de paz na memória de Sandra, Paulo encontra mais e mais sofrimento. Essa memória é sempre incompleta porque é por Sandra, por toda ela que Paulo clama. Pelo seu espírito, pelo seu amor mas também pelo seu corpo e pela sua vida. A melancolia com que escreve,  uma imensa solidão, um perpetuar da falta que Sandra lhe faz, ele não sabe viver sem ela, vive para o amor que ainda mora dentro dele e que o vai alimentando a tortura, no mar de extrema solidão que se tornou a vida de Paulo.Cartas a Sandra constitui, por outro lado, um documento importantíssimo para compreender a personalidade do autor, que vêm em  sequência ao romance auto-biográfico Para Sempre. As cartas, assinadas por Paulo,  são o retrato de uma vida sofrida pela perda dos pais na infância, os anos da universidade, a idade de toda a esperança e força , mais tarde o facto da filha ter tão cedo abandonado a casa paterna, e depois o trágico desaparecimento de Sandra.  O que ficou foi apenas a longa e dura solidão, que irá marcar de forma indelével o final da vida do autor.
O amor por Sandra irá acompanhá-lo até ao fim,  amor quase obsessivo, excessivo e demasiado sofrido, que é simultâneamente tortura e tábua à qual Vergílio/Paulo se agarra ainda à vida, apenas para recordar Sandra.

Vergílio é mesmo assim, muito intímo com a sua alma, com a sua capacidade metafísica que transcende tudo quanto nos deixou nos seus escritos. É como se nos víssemos ao espelho, tal a dor que sente, que sem querer sofremos com ele, e nos reconhecemos em cada palavra. Vergílio nunca tem medo de mostrar o que sente, a dor é tão forte, tão pungente que é como um grito de absoluta solidão. Ele está só, sem Sandra e com ele apenas as memórias desse amor que partiu e o deixou só.
O amor é mesmo assim, nós vivemos nele e para ele, bebemos do mesmo copo, olhamos a mesma paisagem,  e quando nos falta o objecto de amor, damos connosco perdidos num mar de tristeza e angústia, passamos a arrastar-nos na vida, esperando apenas que a vida termine e que o sofrimento termine. É isso que nos mostra Vergílio Ferreira, autor que leio e releio sem me cansar, com quem me identifico em muito do que sente e que tem reflexo em mim, “havia em ti divindade bastante para estar certo o que me doesse”…

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aparição, de Vergílio Ferreira

" Pela última vez, durmo na casa do Alto. É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas. Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos. Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razâo sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa? A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.

Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas. Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...

Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita."