segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Finish every day

Finish every day and be done with it.
You have done what you could.
Some blunders and absurdities
no doubt have crept in;
forget them as soon as you can.

Tomorrow is a new day;
begin it well and serenely
and with too high a spirit
to be cumbered with
your old nonsense.

This day is all that is
good and fair.
It is too dear,
with its hopes and invitations,
to waste a moment on yesterdays.


Emerson

domingo, 11 de setembro de 2011

Abraça-me, preciso de ti agora

Abraça-me com teu amor,
estás a ouvir-me, por favor não vás...
para onde vais? vem conversar,
estou só como animal abandonado,

cerca-me com teu amor,
compreende-me...
preciso de ti, agora!
abraça-me com as tuas palavras,

compreende-me...
diz-me palavras doces,
preciso de ti agora,
não vás, estou tão só.

estou só como uma doença
que precisam de isolar,
cerca-me com teu amor,
cerca-me com  palavras...

comprende-me, abraça-me ...
preciso de ti agora, abraça-me,
preciso de ti agora
não vás, abraça-me.

Mary

O meu Shangri-la sou eu e o Universo

Shangri-la, da criação literária de 1925 do inglês James Hilton, Lost Horizon (Horizonte Perdido), é descrito como um lugar paradisíaco situado nas montanhas dos Himalaias, local de paisagens paradisíacas e  maravilhosas,  onde o tempo parece ter-se detido, parado, como que suspenso  de um qualquer universo longínquo, num ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre pessoas das mais diversas procedências.
Shangri-la será sentido pelos visitantes ou como a promessa de um novo  mundo ainda possível, no qual alguns escolhem morar, ou como um lugar assustador e opressivo, do qual outros resolvem fugir.
No mundo ocidental, Shangri-la é entendido como um paraíso terrestre oculto. Para mim pelo contrário, acho que o nosso Shangri-la é algo muito possível e está ao nosso alcance, no respeito em primeiro lugar por nós próprios, pelo nosso semelhante, por não olharmos o "outro" como diferente, pelo absoluto e incondicional respeito pela Natureza e pela Vida, está sempre connosco, porque ele mora dentro de nós.
Todos os dias da minha vida é uma caminhada em busca do que procuro, o meu Shangri-la, e descobri que esse local pode ser qualquer local, porque o nosso Shangri-la está dentro de nós, nós e o nosso interior é  que somos a simbiose perfeita, tão perfeita como eu sentir que faço parte desse todo, como uma pequena parte de uma força maior, o Cosmos.
Quanto melhores nós conseguirmos ser, quanto mais respeitarmos o que nos rodeia, quer seja Natureza ou pessoas e animais, mais paz interior conseguiremos obter e então nós habitaremos sempre o nosso Shangri-la, porque o nosso corpo é o nosso Templo e a esse temos de dar atenção, saúde e proporcionar bem estar.  Só através da matéria do nosso corpo e do espírito do nosso sentir, do nosso raciocínio, chegaremos lá, bem alto ao Shangri-la.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O que procuro

Quero ser feliz, com uma vida simples, cultivando aquilo que importa mesmo na vida, sem atropelos de consumismos, virada para dentro e para a natureza, com coisas simples,  é a filosofia que sigo e quero continuar a seguir,  sem dogmas de qualquer religião.
Quando digo amo a Deus, o meu Deus é a Natureza, o Cosmos, tudo o que me envolve, a música que oiço e escolho dia a dia para me acompanhar no percurso de mais 24 horas...
Quem me lê, perguntem-me e dir-vos-ei, tão variada quanto os meus humores, pode ir no espaço de horas de uma ópera, ao rock, porque já percebi que por vezes a loucura habita em mim, porque ninguém me compreende, sou  já um caso perdido, porque não sou uma mas mais, e tenho múltiplos interesses. Por isso tanto me identifico com Pessoa, tão bem o percebo, e não creio ser apenas eu que sou assim, enorme dentro de mim própria. Tão grande este sentir e esta felicidade ou mágoa, dor ou solidão, contentamento ou tristeza, que me assusto e chego a duvidar que sou tudo isso.

É como as leituras, desde o pobre  jornal gratuito até ao livro comprado, tudo leio, mas se não aprecio, abandono, e marco a página e comento num papelinho porque abandonei.
Mais tarde volto a ler, volto sempre...há livros que leio quatro e cinco vezes, por tanto gostar, por tanto me dizerem algo. Muitas vezes porque já não recordo porque não acabei aquele livro, leio o tal papelinho que deixei, como já não recordo o início, volto a recomeçar o livro, e depois posso até não entender como  escrevi a notinha de abandono...loucura, não isso depende dos olhos que temos naquele dia. É por isso que, quando um livro me agrada, leio de um fôlego, sem dormir, para não deixar de me agradar. Parece-vos loucura certamente, mas é assim, raramente deixo um livro a meio para o recomeçar no dia seguinte.  Para que a imagem que ele cria em mim, fique para sempre. Se por acaso vou lendo, aos bocados, é porque esse livro vai tendo revelações sucessivas e também porque estou calma, bem com Deus e com o demónio, ou melhor dizendo, esquecida de mim.

Viver não é fácil, é um percurso de todos os dias, todos os minutos que  percorremos até chegar ao nosso inevitável final. Viver é penoso, difícil e muita vezes a nossa caminhada é na mais absoluta solidão...porque estamos sós, em nós, mesmo que rodeados de gente,  ninguém pensa como nós, ninguém que vive connosco percebe o mesmo que nós e o nosso percurso de vida foi-nos dando fibra, endurance,  nós fomos crescendo, evoluindo, e os outros ficaram para trás...nunca mais é a mesma coisa, por mais que se tente.
Por isso estou sempre a dizer aos que me rodeiam, nunca deixem de ler e estudar, porque nós somos aquilo que aprendemos, aquilo que lemos, a música que ouvimos.
Todas as coisas que aprendemos jovens e adultos, nos bancos das universidades que frequentámos, vão-nos dando um tecido, uma rede, pela qual filtramos apenas o que interessa. Os interesses mudam, os anseios, as vontades, a maneira de perceber o mundo que nos rodeia, o ponto onde Deus nos levou até percebermos que Ele é tudo, tudo mesmo e só por isso, porque os que me rodeiam fazem parte desse todo, é que me tenho vindo a aguentar, dentro deste barco sem remos, sem motor, num rio com muitos rápidos, com quedas de água,   precipícios, que vamos cada dia vencendo.
Por vezes a batalha é na nossa cabeça, e sofremos e choramos, porque estamos sós, abandonados, carentes de amor. Será isto a loucura? Será que sou eu que estou mal, pirulas, teté, chanfrada?
Sim, certamente, se comparada com o comum dos mortais, só que eu, não sou comum, sou muito complicada do estilo ou se ama perdidamente, ou se odeia.

Cada dia que passa me sinto mais diferente das pessoas...por vezes estou num determinado local, como hoje, numa praia de rochas, com pouca areia e muitos calhauzinhos rolantes, o céu azul de um infinito absoluto, a água quase transparente, não inerte mas pelo contrário um pouco mexida já que a maré estava a subir...uma senhora foi tomar banho, precisamente para o sítio mais perigoso...deitou-se e deixou-se balançar ao sabor das ondas.
Mal a vi avançar para aquele sítio pensei, entras mas não sais, ...qual a razão pela qual as pessoas não avaliam o risco, não se preocupam  de fazer o que querem, e correr até riscos para depois  incomodar outras pessoas  que estão "com os anjos", numa simbiose perfeita com a natureza. Nada pode ser perfeito, é isso.
Há dias, como hoje, em que eu e o mar fomos um, eu e o ambiente que me envolveu....gosto de fechar os olhos e sentir o movimento das ondas no meu corpo, ora acariciantes ora mais violentas como no acto do amor, manso ou violento e sedento.
Quando tenho oportunidade de ir à beira mar, é como se rejuvenescesse anos, como se renascesse dentro de mim. Depois, todo o resto do dia corre melhor, tudo é mais bonito, mais brilhante, todas as etapas são mais bem conseguidas e eu estou em paz porque estou com Deus.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Insatisfaction



Por vezes esperamos algo por tanto tempo, fantasiamos o momento, vivemos durante meses para que um dia possa acontecer, e quando acontece, mesmo repetidamente, ele já não é o que esperámos, não nos deixa o arrebatamento, nem o fulgor nas faces, a adrenalina no sangue...ficamos como que decepcionados, terá sido  aguardado com demasiada expectativa ou foi apenas tudo foi demasiado rápido, tão rápido que não deixou mais do que um rasto húmido, mas não de satisfação, antes pelo contrário, de insatisfação,
absolute and sad insatisfaction! E sem darmos por isso essa insatisfação invade-nos a alma e sentimos que estamos sós, absolutamente sós, porque o nosso querer e o nosso sentir, não é como o das outras pessoas, que numa pequena corrida chegam à meta...nós mais lentos, não por preguiça mas por sentidos, demoramos mais a chegar. E essa meta é o que nos põe o brilho no olhar, a alegria no ser...

Pensamento do dia

"It´s never too late or too early to be whoever you want to be,  there´s no time limit, start whenever you want."

in Benjamin Button.

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <<Fui eu?>>
Deus sabe, porque o escreveu.
              Fernando Pessoa

Pensamento do dia




A felicidade que preciso não é a de fazer o que quero, mas a de não fazer o que não quero.

Jean Jacques Rousseau

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Deus das pequenas coisas

A razão que me levou à compra deste livro, foi um acaso. Vivendo uma certa crise existencial, visitei uma das muitas feiras do livro que vou encontrando pela cidade. Entrei um pouco desalentada. Estava a precisar de ler, devorar um livro que me prendesse de tal modo, que não fosse capaz de me separar dele. Estava prestes a sair quando olhei a capa de um e li: «O Deus das pequenas coisas»...gostei do título, li a contracapa. Nunca tinha ouvido falar da autora. Comprei o livro e digo, em boa hora.
Já o reli, porque a primeira leitura foi mais rápida. Isso geralmente acontece-me dada a "voracidade" com que faço a primeira leitura, geralmente é na segunda leitura,  que me deleito, é na segunda que vibro com a escrita, fixo personagens e por vezes consigo mesmo "entrar" no enredo, colocar-me no lugar de um personagem que logo na primeira leitura, me tocou sobremaneira. Porque as palavras continuam a ter uma importância imensa para mim. 
Confesso que de início o achei um pouco confuso. São descritas tantas circunstâncias e personagens que me vi obrigada a voltar atrás, mais de uma vez. A leitura não é fácil, mas mal entramos no enredo, vamos embalados e não conseguimos largar o livro.
Além de ter adorado, foi uma circunstância como matéria para uma cadeira de mestrado. Já o recomendei a vários colegas de curso porque acredito que seja um bom exemplo das matérias que estudamos. Para além de Antropologia, este livro é digno de ser estudado pela sua forma de escrita, pelas imensas mensagens que contêm nas entrelinhas, coisas que ficam no ar, e que tem tudo a ver com a filosofia, a psicologia., as relações humanas e de família, o amor, a inveja, etc. Mas também faz crítica política e social.

A autora, a obra e a Índia
Arundhati Roy é uma escritora indiana e «O Deus das pequenas coisas», o seu primeiro livro. A escritora nasceu em Kerala, na Índia em 1961. É licenciada em Arquitectura, no entanto desde muito cedo que escreve guiões para cinema. «O Deus das pequenas coisas» foi escrito em 1997 e recebeu logo nesse ano,  o prémio Booker Prize.
Segundo Arundhati Roy, o prémio é sobre o seu passado.  A escritora diz que não sabe se voltará a escrever. “Estou à espera que o barulho na minha cabeça pare” , disse Roy em diferentes entrevistas.
Mantêm-se no entanto, uma mulher políticamente muito activa. Dedicada à luta pelas causas políticas e sociais em que sempre se empenhou, escreve artigos de cariz político e social. As mulheres e o regime de castas, a proliferação da energia nuclear na Índia, a globalização, a guerra no Iraque, o 11 de Setembro, e a crescente tensão com o Paquistão, são algumas das causas a que se dedica e se dedicou. Arundhati Roy não quer que separem a sua faceta de escritora, da de activista política.
A escritora refere que não se pode esquecer circunstâncias que marcaram a vida da Índia, a invasão muçulmana, a colonização britânica mas também a era de alta tecnologia, que a Índia vive no presente.
Há alguma ambiguidade na escrita inicial de Arundhati Roy, no que toca à descrição do que é a Índia. Mostra-a ora independente ora sob forte influência colonial. A autora usa um discurso absolutamente contra-hegemónico e é muito agressiva nas suas críticas políticas, o que contrasta em absoluto com a sua aparência física já que tem um olhar absolutamente meigo e uma aparência frágil, é muito bonita e feminina.
Para fazer este trabalho fiz uma pesquisa bastante exaustiva e li muitas entrevistas, que deu em muitas partes do mundo. Sentimos que há uma amargura no passado, que julgo esteja ligado ao seu livro, que creio ser em boa parte, autobiográfico, por coincidência de datas, ou aproximação, creio que Arundhati  poderá ser Rahel.
A escrita de Arundhati Roy é muito simbólica, enigmática, e a escritora tem particular cuidado em mostrar as desigualdades sociais. Uma sociedade onde a civilização europeia continua a ser vista como modelo ideal e modelo a ser seguido. Sophie Moll será a personificação dessa cultura europeia.


O livro
O livro é um romance sobre uma família indiana em dois momentos distintos:
A actualidade da narração, e o da infância dos gémeos Esthapen, ou Estha e Rahel, gémeos dizigótimos, filhos de Ammu.
São eles que nos relatam a história, e esse relato é feito do fim para o início, ou seja ao contrário. Os acontecimentos na visão das crianças, marcam a narrativa de forma particular, mesmo quando a acção não os inclui.
A história foca a vida de uma família, uma vida cheia de acontecimentos trágicos, com uma tensão extrema e expõe de forma subtil, a vida social na Índia, nomeadamente no que toca o sistema de castas.
Tomamos conhecimento desta Índia com muitas e violentas contradições, em que a tradição e a modernidade são elementos de uma luta sem tréguas. Através do olhar de Arundhati Roy, tomamos conhecimento da condição da mulher na Índia, através das várias gerações da família.
“Tudo começou realmente na época em que a Leis do Amor foram feitas. As leis que estipulavam que devia ser amado, e como, equando.” (Isto refere-se a Sophie Moll, amada desde sempre, e aos gémeos, sem amor).
No primeiro plano, um enredo simples, que começa nos anos 60 do século XX, com a trajectória de uma família tradicional indiana em confronto com as sequelas da colonização inglesa na Índia e  do marxismo,  que são os causadores  das crises de identidade cultural e nacional.  A difícil identidade da Índia e mistura de elementos históricos com práticas seculares, levam a que a miséria seja devida ao problema da pobreza e das castas, mas também às muitas línguas faladas e  muitas religiões. Tal como refere a autora no seu livro, a diversidade feita de violentos contrastes com o islamismo e o hinduísmo em coexistência.
No segundo plano do livro, desenrola-se o enredo poético. A organização da história a sequência da mesma, o espaço, o tempo, a estrutura e estilo, o narrador bem como as personagens, tudo está inserido num universo caótico. As memórias, os sentidos, a fantasia, vão entrando na narrativa, como que fazendo uma contra-narrativa onde ela brinca com a linguagem. A contra-narrativa que refiro atrás, concretiza-se no facto de o livro ser sobre a natureza humana e sobre a Índia. A realidade da Índia e da sua História, foi misturada com a realidade interior dos gémeos Estha e Rahel, pela escritora.
Arundhati Roy que é arquitecta de formação, constrói uma Índia através dos sabores, os cheiros, as cores, sons e tradições, crenças e rituais, onde o Oriente e O Ocidente se fundem. A história vai sendo narrada intercalando passado e presente narrativo dos personagens, em que as situações vão sendo reveladas ao leitor. A história gira em torno de uma tragédia que modificou radicalmente a vida desta família de cristãos indianos.
Os gémeos dizigóticos, têm entre si, uma ligação muito fora do comum, como se fossem um só. Eles vivem com a mãe, Ammu, esta divorciara-se do marido, um hindu e viu-se obrigada a retornar à casa dos pais, que têm uma fábrica de pickles e conservas de fruta. Ammu desesperava porque não tinha um dote para ter uma boa proposta de casamento. Ela vivia  infeliz, a mãe não lhe dava amor e o pai estava  sempre mal humorado. Por isso acabou  por casar sem amor.
A vida de Ammu não era fácil junto da mãe, Mamachi e do pai Papachi. Também  o irmão, Chacko,  se  divorciara de uma cidadã inglesa e regressou à Índia.  Também vivia na casa, uma tia-avó, Baby-Kochama, solteirona e muito invejosa de quem era amado. Ammu será muito amada pelos filhos e por apenas uma vez na vida, por um homem, Velutha, ela perderá tanto esse amor, como os filhos.
Baby Kochama não gostava dos gémeos e demonstrava-o amiúde. Os gémeos eram constantemente vigiados pela tia-avó. Para ela os gémeos eram crianças “híbridas”, fruto do relacionamento da mãe cristã e do pai hindu. A cada instante recordava às crianças que estas viviam de favor em casa dos avós, em Ayememem. No entanto e apesar desta perseguição por parte de Baby Kochama, as crianças conseguiam divertir-se e serem “felizes”.
A vida destas crianças, vai alterar-se devido à chegada de Sophie Moll, prima dos gémeas porque era filha do tio  Chacko e da sua  ex mulher. A menina tinha nove anos de idade e vivia na Inglaterra, assim ela era a personificação de tudo o que era de mais querido à sociedade. Como a mãe perdera o segundo marido e padrasto de Sophie Moll, Chacko tinha-a convidado a para ir até à Índia.  Sophie Moll será a protagonista de uma tragédia e desencadeará uma outra, ainda mais grave.
A autora criou um universo híbrido, no que respeita à forma e ao conteúdo do livro, hibridez essa, entre o Oriente e o Ocidente. As influências do “império” ou metrópole da Índia, a Inglaterra, em contraste com as tradições milenares, as religiões e o marxismo. A estruturação caótica da própria sociedade em confronto com a organização social britânica.
Em “O Deus das pequenas coisas” a história é acima de tudo a de Ammu e de seus filhos Estha e Rahel, nascidos em 1962, que irão viver num mundo muito próprio, entre a vida encantada da infância e os segredos do mundo, já adultos. Ammu era maltratada e usada pelo marido, e fora obrigada a fugir e pedir o divórcio.
O livro foca ainda outros assuntos muito pertinentes, o flagelo da pedofilia na Índia, os maus tratos às mulheres duplamente estigmatizadas e o problema do incesto. O problema das religiões e das muitas línguas. A marginalização dos intocáveis ( frutos do sistema de castas que apesar de proibido continua a vigorar). Intocáveis, todos os que têm as tarefas mais abjectas ou “sujas” e não podem contactar com os tocáveis, para não os contaminar. O livro foca ainda o problema do cristianismo e do marxismo, que tinham chegado à Índia como novidades europeias e que “ameaçavam” o sistema tradicional.
O livro é muito descritivo, e por vezes um pouco enfadonho devido ao excesso de descriçã. No entanto tem cenas hilariantes, como a da espera de Sophie Moll e de sua mãe, no aeroporto.
Quando Ammu se separa do marido e regressa a casa dos pais, Arundhati Roy foca uma  das maiores “feridas” da sociedade indiana, a questão do género.
Ammu, estava divorciada, sozinha e com duas crianças,  subjugada à estrutura social e familiar, que levaram a que fosse excluída e não recebesse qualquer amor.  Ela não pertencia a lado nenhum. Mas apesar disso, o amor está por todo o livro como algo impossível. Ele paira no livro como objecto de desejo, com o culminar da felicidade, nas diferentes vertentes desse amor que Arundhati nos mostra.  O de Baby Kochama, uma obsessão pelo Padre Mullingham, um amor platónico, já que ele não lhe corresponde e que ficará para toda a vida. O de Mammachi que amou o marido mas toda a vida foi violentada por ele. O dos gémeos entre si, um amor avassalador e o destes pela mãe. Depois o amor de Velutha e de Ammu, um pelo outro. Dois seres mais puros, quase como as crianças, que se deixaram envolver por algo mágico, mas que terá o preço mais alto. Arundhati Roy foca o fardo de ser-se mulher. Mammachi e Baby, resignadas. Ammu inconformada, que pagará por essa inconformidade.
Mammachi era a matriarca da família, quase cega (possivelmente devido a diabetes),  que durante toda a vida sofreu abusos físicos por parte do marido, um entomologista famoso, anglófilo até à medula, e que era considerado um gentleman por toda a sociedade local, excepto dentro da sua própria casa, pela família, a quem maltratava.
Quando Pappachi se reformou, Mammachi começou a fazer conservas para vender, e com sucesso. Criou a fábrica de pickles e conservas. Mammachi era 17 anos mais nova do que o marido e o facto de este se ter reformado, levaram a que Pappachi a sovasse diariamente. Estas agressões feitas com vasos de latão, só cessaram quando Chacko, que tinha regressado de Inglaterra, viu o pai a bater na mãe e o proibiu de ter tais atitudes para com a mãe. Pappachi não voltou a bater-lhe, mas também não voltou a dirigir-lhe a palavra, até ao dia em que morreu.
Baby era uma mulher azeda. Ela nunca foi amada por ninguém. Quando era jovem tinha-se apaixonado por um irlandês, o padre Mulligham, que estava em serviço na Índia. Baby converteu-se ao catolicismo, na esperança de receber o amor dele. Ele também terá sido tocado pela amor, mas como era católico, acabou por ir embora. Baby estudou paisagismo nos Estados Unidos, e regressou à Índia, solteira e amarga. Assim ficou para sempre. Tinha profunda inveja de Ammu que era muito bonita e que já tinha sido amada pelo marido e pelos filhos e será  depois por Veluhta.
A história da vida de Ammu, é muito triste, ela não concluiu os estudos e desistiu da universidade. A vida em casa era muito amarga. A mãe permanentemente triste, nós sabemos porquê, e o pai sempre mal-humorado. Um verão pediu para ir visitar uma prima a Calcutá e lá conheceu o que viria a ser o pai dos gémeos. Mais tarde descobre que o marido era alcoólico e um preguiçoso. Queria que ela fizesse favores sexuais ao gerente da fazenda de chá onde trabalhava. Este achava-a muito bonita. Em troca propunha-lhe o pagamento da clínica para tratar o alcoolismo do marido de Ammu, se esta se tornasse sua amante. Nessa ocasião Ammu já tinha os gémeos. Ela voltou para casa dos pais. O pai, um anglófilo até à medula, como gostava de ser conhecido, não acreditou que um inglês pudesse ter querido a filha Ammu como sua amante e disse que esta tinha mentido.
A partir dessa altura Ammu foi posta de lado pela família. Duplamente estigmatizada. Não tinha ninguém e era divorciada.
Mas ela e Velutha descobriram-se e amaram-se. Como eram de condição social diferente, o futuro só podia trazer tragédia.
Mammachi tinha explicado aos gémeos que antigamente os paravans, casta a que pertencia Velutha, gatinhavam para trás,  para sair de um local e passavam uma vassoura, para que as outras pessoas não pudessem tocar  nem mesmo nas suas pegadas. Mas disse-lhes que esse tempo terminara.
Velutha era o marceneiro e empregado na fábrica de pickles. Era o melhor empregado, mas Mammachi pagava-lhe mais do a um paravan, mas menos do que a um tocável. Quando eles julgaram ter visto Veluhta num desfile dos marxistas, Baby Kochama disse que poderiam vir a ter problemas com os empregados da fábrica,  por reinvidicações sindicais, e começou a implicar com ele . Mas para o camarada Pillai, a possibilidade de um intocável, pertencer ao partido marxista, era um grande problema. Isso Baby Kochama não sabia.
Um dia Chacko vai confirmar com a ex-mulher os bilhetes de regresso a Inglaterra, quando o pai de Veluhta que fora também ele empregado durante toda a vida, da família de Pappachi, imbuído num espírito de gratidão, denunciou o amor do filho Velutha e de Ammu. Mammachi ficou transtornada e muito enfurecida e Baby quis “vingança”. Mammachi permitia as “necessidades masculinas “ de Chacko, mas pôs toda a sua fúria contra a filha, Ammu. As diferenças de género mais uma vez a serem marcadas.
As duas trancam Ammu no quarto e ambas esperam por Chacko, para saberem o que fazer. No entretanto, Mammachi chamou Velutha e despediu-o, depois de lhe ter dito, tudo o que queria.
Por sua vez os gémeos decidem fugir e levam Sophie Moll, que os quis acompanhar. Eles estavam num barco e iam atravessar para a ilha onde existia uma cabana que Velutha arranjara, e onde eles costumavam brincar.
Os gémeos aprenderam a amar quem os amava. Velutha, dava-lhes carinho e atenção, apesar de ser um intocável. Foi este amor que Velutha teve pelos filhos de Ammu que fez com que esta se apaixonasse por ele, eles amavam-se no bosque onde existia a casa de brincadeiras. Também as crianças amavam Velutha. E foi nesses momentos que as crianças foram felizes.
Ammu é duplamente estigmatizada. Divorciada e apaixonada por um intocável. Esta paixão colocou, segundo a tradição indiana, a imagem da família em causa, perante a sociedade. Arundhati Roy utiliza uma subtileza incrível, ela fala de Chako, o irmão de Ammu, também ele divorciado, mas como homem, não é estigmatizado. A escritora não fala directamente desse pormenor, mas leva-nos a pensar nele.
Ninguém sabia que Sophie Moll não sabia nadar e a casa abandonada ficava numa ilha. Uma espécie de refúgio para onde Estaphen e Rahel costumavam fugir para brincar. O barco em que seguiam virou-se e os gémeos nadaram até à ilha. No entanto, Sophie Moll desaparece. Este acidente virá a ter enorme repercussão na vida das crianças, já que as suas vidas se transformam numa verdadeira tragédia. 
Baby Kochama, para “limpar” a honra da família, inventa uma história e obriga Estha, depois de muito pressionado, a corroborar essa história. Velutha é acusado de tentativa de violação da menina morta e do rapto dos gémeos.
As pequenas coisas vão sendo descritas pela autora até ao ínfimo pormenor, tendo a intenção de prolongar esses momentos preciosos das pequenas coisas, que são proibidas, porque o deus das pequenas coisas é Velutha. Aquele que trazia felicidade e amor. São essas pequenas coisas, a esperança, o amor, a loucura e a alegria.
Arundhati Roy utiliza a linguagem de forma primorosa que vai dando intensidade ao texto. Os adjectivos criam personificações e metáforas. “Os cotovelos da noite, repousando na água, observam” ou “ o bambu amarelo, chorou”.  Utiliza um sem número de presságios, pelo que sabemos que há uma tragédia para acontecer. Somos levados a um crescendo de angústia, que nos leva por vezes a ter de parar na leitura.
As histórias de amor são na generalidade tristes. Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Helena e Páris. Eros e Psiché, Pedro e Inês. Ou mesmo do amor de dois homens por uma mesma mulher, Agamemnon e Briseida, a princesa troiana, por quem Aquiles também se enamorara.
Também a de Velutha e Ammu, estava condenada pela sociedade e pela família.   Ammu foi  expulsa da casa da família e separada dos filhos. É obrigada a devolver o filho ao pai que entretanto voltara a casar e estava melhor do alcoolismo. Rahel ficará com a avó. Ammu terá de procurar emprego noutra cidade. Hospeda-se numa pensão miserável e devido a todos os contratempos e tragédias que sofreu, tem um ataque de asma, que a mata.
Mamachi que toda a vida sofre da violência do marido e esconde as cicatrizes desses maus tratos, também ela estigmatizada, mas suportava o abuso do marido.
A história da malévola Baby Kochama, eternamente apaixonada pelo Padre Mullingham e que vai ser a causadora de parte da tragédia. Mas também ela, apesar de tudo, suportava o desamor na sua vida.
A narrativa é feito ao contrário, como já referi. Arundhati Roy apresenta inicialmente, os personagens e no segundo capítulo é o final da história, quando Rahel, depois de ter sido separada da família, anos mais tarde, visita Estha, seu irmão gémeo.
E este reencontro será trágico, dado que os irmãos se amam  muito para além da consanguinidade, de uma tal forma que fazem amor, mesmo sabendo que cometem incesto.
O livro é uma grande história de amor, com muitas peripécias e tragédias à mistura. Onde só se falam as pequenas coisas porque as grandes coisa ficam sempre por dizer. A Mammachi espancada mas que amava o marido, o tio que não consegue esquecer o seu amor inglês e no âmago da história está o amor de Ammu e Velutha, um intocável. E principalmente o amor dos gémeos um pelo outro.
Ao lermos o livro temos a sensação que Arundhati Roy, a cada frase e capítulo que escreve, vai dando uma pincelada num quadro, e o quadro vai sendo pintado pelas perspectivas de duas crianças gémeas de sexo oposto.
Os últimos capítulos do livro são muito mais violentos do que os primeiros, e parece que há uma série de memórias reprimidas no modo como a escritora se exprime. E essas memórias vão-nos mantendo alerta e por vezes explodem como no caso do incesto ou do abuso que Estha sofre no cinema por parte do empregado do bar, o homem laranjada limonada, como lhe chamavam as crianças. Ou na morte brutal e absurda de Velutha, e depois de Ammu, como filha divorciada que não tinha lugar em parte nenhuma muito menos depois de ter amado um intocável. Ammu morre nua, apenas com verniz das unhas, vítima de uma crise de asma. O retrato da absoluta solidão. A solidão na morte, como se nenhum deles merecesse que chorassem por eles, tal a sua condição de “impureza social”...
Há diversos episódios marcantes, como quando vão ao cinema, ver “Musica no coração”, a história da família Von Trapp, as crianças pensem naquela crianças como sendo limpas e brancas, mais uma vez uma chamada para o problema de castas  palavra que quer dizer cor, e quanto mais escuras as pessoas forem, mais baixa  a sua casta. Ou até sem casta, como os intocáveis. O facto de Estha ter sido molestado pelo homem laranjada limonada, passará à mudez, será “ a gota calada num mar de ruído”.
O episódio do aeroporto na chegada de Sophie Moll e Margareth, com as crianças em birra, a formatação destas e o atropelo dos adultos, é uma descrição que nos dá a sensação de “assistirmos” ao episódio. Depois do corpo de Sophie ser descoberto, afogado, a quem os “peixes comeram os olhos”, Velutha é acusado da morte da menina e de rapto dos gémeos. Terá uma morte brutal, como se não fosse gente mas um qualquer fardo onde os guardas espancam, como para se vingarem do ultraje de um intocável. É um dos momentos mais dramáticos do livro.
O livro retrata ainda, a meu ver, um amor incrível entre mãe e filhos, a crueza e solidão da separação. A autora usa os saltos cronológicos, por vezes para nos baralhar, é bem conseguido porque ela vai buscar as “pontas soltas” que ficaram suspensas. E há outras “coisas” onde pegar e discutir, que são também ainda hoje, mesmo na sociedade ocidental mais evoluída e moderna, assuntos tabus.
No início do livro, que é o fim da história, Rahel agora mulher formada, regressa a casa da avó, vinte e três anos depois da tragédia que matou a mãe e o grande amigo Velutha. Também ela está divorciada. Volta para ver Estha, que tinha sido “des-devolvido” pelo pai, porque tinha ido trabalhar para a Austrália. Mas Rahel vai também para encontrar o irmão que deixara de falar e se tornara silencioso desde a época da tragédia. Estha perdera a mãe que o amava duplamente, como pai e mãe, o amigo Velutha, tinha sido molestado no cinema, e tinha perdido o amor de todos. Rahel dá-se conta que não fala de “nós”, quando pensa no irmão e nela própria. Ela substitui o pronome por “eles”, é como se estivesse fora da narrativa que faz com que ela e o irmão, fossem assuntos presos no passado. Já não são crianças, já têm uma idade “morrível”. E este facto parece como outros, por exemplo o súbito amor de Ammu por Velutha, nos capítulos anteriores, e que veio a originar parte da tragédia, como algo um pouco “fora de contexto” na narrativa.
Arundhati Roy retrata as personagens que cometem injustiças e praticam violência, mas a quem são dadas “razões” na vida pessoal, para os “explicar” essa violência.
A autora foca de forma magistral, a opressão do género feminino, mas também a estratificação social em castas, e ainda a banalização da cultura indiana quando comparada com a do “império britânico”. Esse sentimento de “subalternidade” é-nos mostrada pela voz de Chacko, quando se refere que os sobrinhos são anglófilos.
A chegada de Rahel a Kerala,  é feita debaixo de uma chuva torrencial, em plena monção de Junho, como se fossem as suas próprias lágrimas pelas tragédias do passado e pelo peso da culpa que levou consigo, particularmente pela morte da que ela chamava de “Amada desde o Principio”, a prima Sophie Moll, que tinha sido amada por todos, até por Deus e eles, Ammu, Estha, Rahel e Velutha, nunca foram assim amados.
A descrição da chegada de Rahel com a vegetação a enroscar-se nas paredes da casa e o velho Plymouth azul celeste de barbatanas cromadas com Baby Kochama ainda lá dentro. Rahel entra em casa, uma casa vazia, com uma varanda vazia...regressa para viver as memórias da mãe e para encontrar o irmão que não fala desde as tragédias.
Afinal o que é o deus da pequenas coisas? Como explica a autora numa entrevista, “ o deus das pequenas coisas é a forma como as crianças vêem as coisas, a vida dos insectos, os peixes ou as estrelas, é um não aceitar do que pensamos ser as fronteiras dos adultos”.
Velutha era o deus das pequenas coisas, aquelas que trazem aconchego, felicidade, alegria. Quando Ammu estava com Velutha e com as crianças, eles falavam das pequenas coisas, as grandes, essas ficavam sempre por dizer.

PS: recomendo vivamente este livro a quem quer saber mais sobre o mundo que nos rodeia, sobre o que podem ser as estigmatizações sociais e o que pode ser o verdadeiro amor, que nem sempre vence no final da história.

Uma estrada sem rumo



Cá estou mais uma vez, ausente do mundo, o corpo cansado mas perdida dentro de mim, do meu ser.
Continuo sem rumo, mas onde os instintos do meu corpo me vão guiando, febril, por esta estrada onde não encontro sinais.
É como se fosse caminhando sem saber para onde, nem sequer saber onde a estrada me leva.
Por vezes sinto-me agastada numa vivência sem interesse onde o querer deixou de fazer sentido. Como se eu fosse não uma, mas múltiplas identidades.
Preciso por vezes inventar, escrever, ficcionar para que a vida, aquela que percorro, tenha sentido, preciso disso para me dar uma razão de viver.
Estou como qualquer um que viaje e sentado num banco de uma carruagem, quase vazia, sem saber muito bem onde aquele comboio o transporta.
E noite dentro cá venho escrever, porque a escrita me alivia a alma, e lá vou prosseguindo neste Fado, procurando em vão o sentido para a minha estrada, para o meu percurso.
As pessoas estão sempre ocupadas, ninguém tem tempo para nós, somos muitas vezes um peso, queremos falar, dialogar, mas não é possível, a sociedade vive constrangida, estereotipada, fechada em padrões.
Vive-se num círculo de pessoas mas tudo o que sai para fora dos parâmetros do que acham "normal" é estranho, absurdo.
Olham de lado quem não se contenta com as migalhas que a sociedade nos oferece, como se nós pertencêssemos a outra galáxia...na sua opinião somos estranhos, nunca contentes com o que temos ou somos, como se fossemos ave de arribação, que pousa aqui e ali, nem norte ou destino certo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Você

Nunca existiu ninguém como você, antes
Não existe ninguém como você , agora
Nem nunca existirá.
Veja só o respeito que a vida tem por você.
Você é uma obra de arte – impossível de repetir.
Incomparável, absolutamente única.

Osho

AUSÊNCIA


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
                          

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 4 de setembro de 2011

Comer, Orar, Amar

Comer, Orar, Amar... 

Uma mulher  de  34 anos, sem filhos, leva uma vida aborrecida e rotineira que a leva a cansar-se do casamento. Depois de várias noites de insónia e lágrimas, um dia resolve ganhar coragem e anunciar o divórcio. O marido reage mal e o conflito judicial prolonga-
-se. A personagem central está com uma depressão e vive na casa de uma amiga até se restabelecer.
Este drama é, infelizmente, frequente entre as mulheres de meia idade, em especial nos Estados Unidos. 
O que já não é tão comum é a fórmula encontrada por esta mulher com o coração despedaçado (Elizabeth Gilbert) para recuperar a auto-estima. Jornalista de viagens com as finanças arruinadas devido ao divórcio, Elizabeth consegue obter um adiantamento da sua editora para escrever um novo livro e decide partir para uma “jornada espiritual de transformação”.
A primeira etapa dessa viagem é a Itália, onde a autora redescobre o prazer da gastronomia e do dolce far niente (que significa levar uma vida de ócio). É já com um sorriso nos lábios, mas também com uns quilos a mais, que parte para a segunda etapa: um retiro de meditação num ashram (templo) no coração da Índia. É nesse local que aprende a rezar, a perdoar-se a si mesma e a encontrar a paz interior. Para isso muito contribuíram os conselhos pragmáticos de um homem mais velho, que ela apelida apenas de “Richard do Texas” (em troca, ele chama-lhe “Mercearias” devido ao enorme apetite que Elizabeth trazia de Itália, nada compatível com os hábitos frugais do ashram).

peregrinação interior
A localidade paradisíaca de Ubud, perto de Bali, na Indonésia, é a terceira etapa da sua “peregrinação”. A autora já tinha estado no local como jornalista, antes do divórcio. Na altura conheceu um xamã de nome Kerkut (que ela apelida carinhosamente de “Mestre Yoda”, devido à sua baixa estatura) que profetizou que ela teria dois casamentos (um curto e um longo), viajaria muito, perderia todo o seu dinheiro mas acabaria rica. Disse também que ela voltaria a Bali para o rever.
Como a profecia estava a bater certo em todos os pontos, a autora regressou a Bali na esperança de que aquela fosse a etapa final do seu processo de transformação. E foi. Mas não propriamente no campo espiritual. Foi lá que conheceu o brasileiro Felipe, 17 anos mais velho, e  redescobriu o amor.

uma história verídica
O que parece ser mais uma drama é  na verdade uma história verídica.
A protagonista, Elizabeth Gilbert, escreveu um livro auto-biográfico que se tornou um surpreendente êxito literário à escala global.
Elizabeth e Felipe, vivem hoje num rancho nos Estados Unidos, são felizes apesar da diferença de idades, ele trabalha no rancho, ela escreve e trata do seu jardim e animais.