sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O amor

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Os que amam profundamente

Os que amam profundamente, jamais envelhecem; podem morrer de velhice, mas morrem jovens. O amor é a imagem de Deus, mas não uma imagem da vida. É, isto sim, a verdadeira essência de toda a natureza divina, que fulga em bondade.

As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.






Cartas a Sandra

Mais um autor com pelo menos um alter-ego. Vergílio Ferreira nunca ultrapassou a morte da mulher a quem tanto amava e passou a viver à espera do fim, como uma inevitabilidade, como fim previsto e até ansiado.
Paulo (alter-ego do autor) passa os últimos dias da sua velhice escrevendo cartas a Sandra, esposa há muito falecida, recordando a sua vida em comum bem como a sua relação com Xana, a filha que muito cedo abandonou a casa de família. É um testemunho pungente,  desesperado, de um homem apaixonado a quem faltou vida para desafiar a morte da mulher amada. Para Paulo o tempo terminara na morte de Sandra. Todavia, para além desse facto ficou o amor, este  perdurou para lá morte de Sandra, mas com uma dor pungente no coração, da qual o autor não mais se conseguiu afastar, ela permanece lá e vai cada dia ficando mais funda, mais cravada no seu coração. À procura de paz na memória de Sandra, Paulo encontra mais e mais sofrimento. Essa memória é sempre incompleta porque é por Sandra, por toda ela que Paulo clama. Pelo seu espírito, pelo seu amor mas também pelo seu corpo e pela sua vida. A melancolia com que escreve,  uma imensa solidão, um perpetuar da falta que Sandra lhe faz, ele não sabe viver sem ela, vive para o amor que ainda mora dentro dele e que o vai alimentando a tortura, no mar de extrema solidão que se tornou a vida de Paulo.Cartas a Sandra constitui, por outro lado, um documento importantíssimo para compreender a personalidade do autor, que vêm em  sequência ao romance auto-biográfico Para Sempre. As cartas, assinadas por Paulo,  são o retrato de uma vida sofrida pela perda dos pais na infância, os anos da universidade, a idade de toda a esperança e força , mais tarde o facto da filha ter tão cedo abandonado a casa paterna, e depois o trágico desaparecimento de Sandra.  O que ficou foi apenas a longa e dura solidão, que irá marcar de forma indelével o final da vida do autor.
O amor por Sandra irá acompanhá-lo até ao fim,  amor quase obsessivo, excessivo e demasiado sofrido, que é simultâneamente tortura e tábua à qual Vergílio/Paulo se agarra ainda à vida, apenas para recordar Sandra.

Vergílio é mesmo assim, muito intímo com a sua alma, com a sua capacidade metafísica que transcende tudo quanto nos deixou nos seus escritos. É como se nos víssemos ao espelho, tal a dor que sente, que sem querer sofremos com ele, e nos reconhecemos em cada palavra. Vergílio nunca tem medo de mostrar o que sente, a dor é tão forte, tão pungente que é como um grito de absoluta solidão. Ele está só, sem Sandra e com ele apenas as memórias desse amor que partiu e o deixou só.
O amor é mesmo assim, nós vivemos nele e para ele, bebemos do mesmo copo, olhamos a mesma paisagem,  e quando nos falta o objecto de amor, damos connosco perdidos num mar de tristeza e angústia, passamos a arrastar-nos na vida, esperando apenas que a vida termine e que o sofrimento termine. É isso que nos mostra Vergílio Ferreira, autor que leio e releio sem me cansar, com quem me identifico em muito do que sente e que tem reflexo em mim, “havia em ti divindade bastante para estar certo o que me doesse”…

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


sábado, 24 de setembro de 2011

É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas




“É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
Dificílimo contar.
Olhei pra você fixamente por instantes.
Tais momentos são meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade”.



Clarice Lispector

Se sou amado

Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
-tem que ter reflexo.

O amor é uma companhia


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
                                     Alberto Caeiro

Hoje de manhã saí muito cedo

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
                    Alberto Caeiro

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


É assim que te quero, amor

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

O Amor


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..