quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ai o Natal....


Este ano o meu Natal  foi ainda  menos convencional do que os anteriores.  Raramente faço pratos tradicionais. Odeio fazer o que todos os outros  fazem, até porque peru e bacalhau, como todo o ano e o que interessa é mesmo estar em paz, mesmo que sozinha. 
Nos últimos anos tenho passado o Natal a dois, e este ano, ainda não foi excepção.

Para ser sincera detesto tudo o que seja comercial, fácil, oco, bonitinho de aparência, pessoas falsas ou pretensamente cultas, mas que têm  sentimentos contrários aos meus.
Norteio a minha vida por princípios. Nem sempre entendidos até pelos filhos, quanto mais por quem não me conhece de parte nenhuma.
A única coisa que quero mesmo, para mim e para o meu companheiro de vida, é paz e serenidade. Que as quezílias fiquem fora da redoma neste período.  Não quero nem aproximação de quem me quer mal, me faz mal, me inveja,  me olha de esguelha, me contradiz, me critica mesmo que nas costas e em surdina. Esses não são meus amigos e eu não os quero a ver-me, olhar-me, ler-me, partilhar o que gosto.

Como não praticante de nenhum credo para além de amante da natureza, sinto recentemente um certo apego a Francisco, o novo Papa. Quero acreditar que o Universo congeminou na vinda dele, na sua eleição, para trazer mais realeza ao mundo. Porque a felicidade não é dos ricos. 
Conheço tanto rico pobre de amor....que apenas tem dinheiro, e esse deve ser o estado mais pobre e triste que algum ser humano pode experimentar.

Este Natal foi para mim mais um período onde alegria,  houve pouca. 

Não são só os problemas de cada um, mas por todo o mundo houve problemas. 
Mortes nas cheias no Brasil, mortes e milhares de pessoas afectadas pelos temporais na Inglaterra, Irlanda e Escócia, no Canadá, mais de meio milhão de pessoas sem electricidade, outras sem poderem viajar, milhões com fome, chuvas torrenciais, e a constatação de que o mundo é cada dia mais desigual. 
A Terra,  o verdadeiro paraíso que muitos homens  tornam   no maior dos infernos!

Portugal empobreceu, mas subiram o número de milionários....fantástico não é?
 
É nestes dias que pensamos em todas as guerras, especialmente na Síria, aos problemas de Gaza e todo o médio oriente, o drama do tráfico de seres humanos, ainda o Iraque, nos países do Corno de África, na corrupção de políticos que vai da esquerda à direita....um horror... este mundo!

Por isso pergunto, porquê comemorar o Natal da maneira como hoje é feito? Sem o espírito. Nasci uns bons anos depois da II Grande  Guerra, mas era criança e ainda recordo as filas de pessoas com senhas para o pão, para os lacticínios. Nesse tempo, posso garantir-vos,  em casa de meus avós paternos  vivi os únicos natais da minha vida, a sério. Não havia prendas...quantas vezes se recebia uma camisola tricotada à socapa por uma tia, ou umas meias, nos  longínquos anos cinquenta, era um luxo ter certas coisas. Porque a guerra devastara parte do mundo, havia pouco que comer e comia-se das hortas, o resto trocava-se. Recordo dos meus vestidos, até ter uns sete anos, creio que eram feitos de camisas de meu pai e tios, que começavam aqui e ali a ficar puídas, Tudo se aproveitava. Bons tempos esses, muito mais tarde tive uma boneca de papelão que veio de Espanha...de onde não vêm nem bons ventos nem bons casamentos, eu tive a minha boneca. E caramelos...meu avô materno lá arranjava quem lhe "passasse" uns pacotes de caramelos. Contrabando, na altura. Vivíamos uma ditadura de direita!!

Hoje os filhos, na maioria das vezes não querem estar com os pais, preocupam-se que "prenda"  vão receber,  por isso e de há uns três anos a esta data, cá em casa, há pequenas recordações, um livro, uma caixa de bombons, uma vela, uma planta e pouco mais. 
Porque o Natal se não é para ser vivido em família, não pode ser desculpa para endividamento, para dar cabo do fundo maneio da família.
Porque o Natal é confraternização e é essencialmente uma boa época para fazermos um exame interior, de renascimento dentro de nós mesmos, sem medos e retirar de nossas vidas o que nos faz mal, sermos capazes de cortar o tal cordão que nos prende ao sofrimento. Sermos capazes de fazermos projectos, o tal dos pequenos passos, mudando o nosso interior,  a pouco e pouco, para melhor, sempre em frente e sem olhar para os erros do passado, sempre na senda da paz e do renascimento do nosso eu. 
Para mim é isso o Natal,  geralmente período em que passo largas horas sozinha na cozinha, fazendo coisas que todos gostam e com muito amor, mas que serve essencialmente como uma purga interior. 
É nesse  período que eu sei,  tenho Deus em mim, porque eu saio iluminada desses períodos e com motivos e forças para continuar, mesmo sofrendo, mesmo não tendo o sucesso que sei merecer, mas reforçada na minha alma e com muito mais ânimo. É por isso que amo o Natal. 
Saio sempre mais forte e convicta de que o caminho é para continuar e percorrê-lo sempre com mais propósito e ânimo.


Por isso vos desejo também, Feliz Natal!
 

domingo, 13 de outubro de 2013

Esta tristeza que me invade

Tenho mau feitio! Eu sei!
Mas fiquei ainda mais casmurra porque perdi a minha "sombra".
Sinto como se tivesse perdido uma parte de mim.

O meu querido gato  T. estava um pouco doente. Sequela das maldades que os donos fazem aos seus animais.
O T.  foi castrado há uns quatro anos atrás, já adulto. Nunca mais foi o mesmo animal...perdeu a alegria, perdeu a força e passava grande parte do dia a dormir.
Tive muitas dúvidas em  castrá-lo, por opção própria não o faria...o problema foi quando trouxemos outro gatinho para casa, capturado por mim, nas traseiras.
Esse ele aceitou, porque era bebé....

Mas...e há sempre um "mas",  uma das minhas filhas recolheu dois outros também da rua, uma gatinha e outro gato. Quando a gata teve o cio, eles começaram todos a marcar território....cá em casa.
Era nas plantas, nas paredes, até em revistas, que estavam na estante....

Enfim, os  gatos, foram todos castrado. Infelizmente o meu T., que era o mais velho, nunca ficou bom...ele tinha sempre uma pequena dor no baixo ventre, que a veterinária disse ser passageira. Mas não foi, infelizmente.
Finalmente minha filha saiu com os gatos dela, procurando a sua independência, e cá em casa ficámos com os dois gatos maiores.

Gosto de ter a casa florida e compro flores para colocar em jarras.
Desconhecia em absoluto, que algumas flores são perigosas, aliás sabia de uma ou duas plantas, mas não de flores.

Quis o destino que  trouxesse várias flores, umas compradas, outras apanhadas quando passeio a cadela. Entre estas, lírios.
Ora o meu gato estava muitas vezes deitado, por trás do meu portátil, que está geralmente numa das mesas da sala. Perto tinha uma jarra com lírios.
Terá sido o pólen destes, que caindo sobre o pelo do gato e depois lambido nas inúmeras sessões de higiene, que o matou.
Como estava debilitado, apesar de estável, o pólen dos lírios ( que desconhecia ser  letal para os gatos), foi fulminante e nada houve a fazer.
 Passava horas junto a mim, quando me levantava, ia atrás...uma autêntica sombra.

Já passaram  mais de duas semanas e a dor ainda custa a ser suportada.
Por essa razão e apesar do bom tempo, tenho saído pouco, não tenho vindo aqui, e sinto-me pouco sociável.
Já tenho um substituto para ele. No veterinário onde morreu, apareceram uns gatinhos, que alguém abandonou.
Infelizmente é o que se passa por aí a cada segundo, o abandono e negligência de animais. Resolvi  trazer um, mas também este tem nas patinhas uma espécie de micose,  porque esteve sem comer,  e junto de terra com detritos, quando bebé.
 Gostaria que ele  fosse como o meu T., que me seguisse e me fizesse companhia.Vamos ver se ele quer...



sábado, 14 de setembro de 2013

Saudade




A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.


Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.


Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Martha Medeiros

Também eu, hoje, sinto saudade de tanta coisa boa que vivi...até das coisas más por que somos obrigados a passar, do meu pai querido que já não pode ouvir-me, dos manos ...saudade...palavra doce e linda que abarca em si, tanto de nós.

domingo, 1 de setembro de 2013









A arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.



Cecília Meireles

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Half the sky


Este post sofreu um comentário desagradável por parte de alguém que não se identificou devidamente. Resolvi apagar o comentário, porque não há mal que me derrube.
Reformulei o artigo que tinha escrito e aqui está de novo, bem mais curto e sempre com a mulher no centro da notícia...todos precisamos lutar para que situações de exclusão e de morte por honra, as chibatadas em público não mais aconteçam.
Não podemos deixar que se escondam por trás de tradições ou costumes, se estas estão erradas.
Nas Maldivas, uma menina de 15 anos que foi  vítima de violação,  tem uma pena para cumprir de 150 chicotadas em público. Informando a comunidade, fazendo  e  assinando petições, lutando no terreno, podemos ajudar a mudar o que está mal.
"Se você educar um homem, mudará uma pessoa; 
se educar uma mulher, mudará uma comunidade"

Essa frase me fez lembrar do livro Half the Sky (Metade do Céu), que aborda exactamente essa questão: a importância de educar as mulheres e como, ainda hoje, elas ocupam um lugar secundário e inexpressivo em muitos lugares do mundo, em muitas comunidades.  São vítimas da violência doméstica e sexual, impedidas de frequentar escolas, trabalhar e até mesmo,  colocadas em segundo plano no próprio  núcleo familiar. Em alguns países, numa casa onde há pouca comida, alimenta-se primeiro o filho homem, depois a menina. Isso sem falar nos inúmeros casos que envolvem a prática da morte em nome da honra.
Meninas e mulheres, vítimas de violação, são assassinadas por membros da família em nome da honra. 
Half the Sky tenta mostrar-nos a realidade,  e faz-nos sair da nossa zona de conforto.  

Quando li este livro fazia um ano de  pós graduação na Universidade Clássica de Lisboa. A grande lição que o livro nos ensina é que pelos nossos mais pequenos gestos, pela nossa não indiferença,  podemos ir salvando o mundo, uma mulher de cada vez. Por isso lhe peço, não fique indiferente, leia e seja mais uma pessoa a ajudar quem precisa.

Compre o livro, leia, medite e depois visite o site : http://www.halftheskymovement.org/

Não fique indiferente.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Longa ausência

Há muito não  venho aqui com regularidade. Hoje por exemplo ainda não me deitei.
Infelizmente as insónias  o e mau dormir, são uma constante na minha vida.

Não quis deixar de vos agradecer,  a quem por aqui aparece de vez em quando e vai tentando perceber um pouco quem sou ou o que penso.

Hoje escrevo mais sobre mim do que penso. Sem querer nós abrimos a alma até nas redes sociais.
Gosto de escrever, gosto de ler e participar em blogs, gosto de conhecer pessoas, sem as conhecer.

Tanto que dizemos mais escrevendo do que falando. 
Para ser sincera e verdadeira, chateei-me, queremos sempre que os outros pensem igual a nós e não temos esse direito. Depois  é uma desilusão, mas felizmente, passa rápido.

Sou um pouco assim :
...
"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem por que ama, nem o que é amar..."...

De Alberto Caeiro, o pastor de rebanhos. O meu heterónimo de Fernando Pessoa, favorito.



Espero que também gostem, para ser muito sincera, identifico-me muito com Caeiro, diria mais, com Fernando  Pessoa...

Espero não demorar muito a voltar, se assim acontecer, as minhas desculpas.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Rabindranath Tagore

“I slept and dreamt that life was joy. 

I awoke and saw that life was service. 

I acted and behold, service was joy.”



Rabindranath Tagore 
Harmonia

Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.



Miguel Torga





sábado, 13 de outubro de 2012

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,

Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;

É astro que norteia a vela errante,

Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;

Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou"

William Shakespeare



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Para Ti




Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

segunda-feira, 28 de maio de 2012


Acabei de ler este texto de Marta Medeiros que sigo e leio, nas diferentes facetas em que escreve. E coloco-o aqui, porque ele traduz exactamente o que penso.

OS RICOS-POBRES

Anos atrás escrevi sobre um apresentador de televisão que ganhava um milhão de reais por mês e que em entrevista vangloriava-se de nunca ter lido um livro na vida. Classifiquei-o imediatamente como uma pessoa pobre.
Agora leio uma declaração do publicitário Washington Olivetto em que ele fala sobre isso de forma exemplar. Ele diz que há no mundo os ricos-ricos (que têm dinheiro e têm cultura), os pobres-ricos (que não têm dinheiro, mas são agitadores intelectuais, possuem antenas que captam boas e novas idéias) e os ricos-pobres, que são a pior espécie: têm dinheiro, mas não gastam um único tostão da sua fortuna em livrarias, museus ou galerias de arte, apenas torram em futilidades e propagam a ignorância e a grosseria.
Os ricos-ricos movimentam a economia gastando em cultura, educação e viagens, e com isso propagam o que conhecem e divulgam bons hábitos. Os pobres-ricos não têm saldo invejável no banco, mas são criativos, efervescentes, abertos. A riqueza destes dois grupos está na qualidade da informação que possuem, na sua curiosidade, na inteligência que cultivam e passam adiante. São estes dois grupos que fazem com que uma nação se desenvolva. Infelizmente, são os dois grupos menos representativos da sociedade brasileira. O que temos aqui, em maior número, é o grupo que Olivetto não mencionou, os pobres-pobres, que devido ao baixíssimo poder aquisitivo e quase inexistente acesso à cultura, infelizmente não ganham, não gastam, não aprendem e não ensinam: ficam à margem, feito zumbis.
E temos os ricos-pobres, que têm o bolso cheio e poderiam ajudar a fazer deste país um lugar que mereça ser chamado de civilizado, mas que nada: eles só propagam atraso, só propagam arrogância, só propagam sua pobreza de espírito.
Exemplos?
Vou começar por uma cena que testemunhei semana passada. Estava dirigindo quando o sinal fechou. Parei atrás de um Audi preto do ano. Carrão. Dentro, um sujeito de terno e gravata que, cheio de si, não teve dúvida: abriu o vidro automático, amassou uma embalagem de cigarro vazia e a jogou pela janela no meio da rua, como se o asfalto fosse uma lixeira pública.
O Audi é só um disfarce que ele pôde comprar, no fundo é um pobretão que só tem a oferecer sua miséria existencial. Os ricos-pobres não têm verniz, não têm sensibilidade, não têm alcance para ir além do óbvio. Só tem dinheiro. Os ricos-pobres pedem no restaurante o vinho mais caro e tratam o garçom com desdém, vestem-se de Prada e sentam com as pernas abertas, viajam para Paris e não sabem quem foi Degas ou Monet, possuem tevês de plasma em todos os aposentos da casa e só assistem a programas de auditório, mandam o filho pra Disney e nunca foram a uma reunião da escola. E, claro, dirigem um Audi e jogam lixo pela janela. Uma esmolinha pra eles, pelo amor de Deus.
O Brasil tem saída se deixar de ser preconceituoso com os rico-ricos (que ganham dinheiro honestamente e sabem que ele serve não só para proporcionar conforto, mas também para promover o conhecimento) e se valorizar os pobres-ricos, que são aqueles inúmeros indivíduos que fazem malabarismo para sobreviver, mas, por outro lado, são interessados em teatro, música, cinema, literatura, moda, esportes, gastronomia, tecnologia e, principalmente, interessados nos outros seres humanos, fazendo da sua cidade um lugar desafiante e empolgante.
É este o luxo de que precisamos, porque luxo é ter recursos para melhorar o mundo que nos coube, e recurso não é só money: é atitude e informação.
Marta Medeiros

domingo, 20 de maio de 2012

'Carta a Deus'



Miguel Esteves Cardoso - 'Carta a Deus'


"Deus,
Bem avisaste que eras um Deus invejoso e vingativo. Também sei que Job era um caso-limite: uma ameaça do que eras capaz. Nem eu nem a Maria João temos um milésimo da obediência e da resignação de Job. E castigaste-nos menos. Mas foi de mais.
De certeza absoluta que nos amamos mais um ao outro do que te amamos a Ti. Sabemos que isto não está certo. Mas foste Tu que nos fizeste assim. Admite: deste-nos liberdade de mais. Foste presunçoso: pensaste que Te escolheríamos sempre primeiro. Enganaste-Te. Quando inventaste o amor, esqueceste-Te de que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e Tu. Por uma questão de tangibilidade. E, desculpa lá, de feitio. Tu, Deus, tens o pior das arrogâncias feminina e masculina. Achas que só existes Tu. Como Deus, até é capaz de ser verdade. Mas, para quereres ser um Deus real e humanamente amado, tens de aprender a ser um amor secundário. Sabemos que és Tu que mandas e acreditamos que há uma razão para tudo o que fazes, mesmo quando toda a gente se lixa, porque não nos deste cabeça para Te compreender. Esta deficiência foi uma decisão tua: não quiseste dar-nos a inteligência necessária.
Mas deste-nos cabeça suficiente para Te dizer, cara a cara, que nos preocupamos mais com os entes amados do que contigo.
Ajuda a Maria João, se puderes. Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar. Faz o que só um Deus pode fazer: reduz-te à tua significância. Que é tão grande. "



Miguel Esteves Cardoso 


In Público, 3, Maio, 2012





PS:  Estamos todos contigo Miguel, para que a Maria João possa ficar curada e poderem ser ainda muito felizes!!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A verdadeira geração à rasca


Uma notícia pertinente, em que quase ninguém comentou, lamentavelmente...porquê? porque é verdade?Porque sou mãe e partilho do que aqui está escrito, e assino por baixo, a verdadeira geração à rasca, é a minha...que apenas sofre e paga!!Eu e todos os da minha geração, que tanto pugnámos por tudo o que hoje mais uma vez, pela mão da direita, se está a perder, é que somos a verdadeira geração à rasca
Este artigo, tanto quanto sei, foi escrito por uma professora da Faculdade de Letras, cujo nome desconheço. Tive acesso a ele, porque me disseram ter sido escrito por Mia Couto. Afinal, não foi. 


Geração à Rasca - A Nossa Culpa
"Um dia, isto tinha de acontecer. Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes. Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou pads, sempre de última geração. São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar! A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam. Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagógicamente sobre o desespero alheio. Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida. E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!! Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço? "