quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Livro do Desassossego de Bernardo Soares



"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade...
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura."
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.
"Sou do tamanho do que vejo!" Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão."

Nota: Pessoa, na "pele" de Bernardo Soares, um seu heterónimo, escreve sobre Alberto Caeiro, outro dos muitos heterónimos, in «O guardador de rebanhos»

sábado, 26 de novembro de 2011

um quarto, o mar ao fundo




um quarto, o mar ao fundo
e muito além
(transpostas as ondas)
a morna respiração da manhã
desabando sobre os campos
amei
lembro-me que amei
e a angústia de ter amado tanto
dói como um segredo revelado
que me devorem as lembranças
pois amei, sim
cada instante
amei tanto
que deixei minha alma estendida sobre a cama
sem ao menos perguntar
se haverias de querê-la presa,
junto à tua,
naquele quarto, o mar ao fundo.


Sergio Ornellas

sábado, 19 de novembro de 2011

Passei toda a noite, sem dormir


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
 
 
                                                          Alberto Caeiro
 

sábado, 5 de novembro de 2011

Uma catarse

Depois de tanto sol, de tanto calor, eis que chegou o friozinho, e a chuva. Mas não uma chuva qualquer, é semelhante a uma catarse dos céus, parece um dilúvio. Por vezes ao cair, essa chuva, ora persistente ora torrencial, dá a sensação que os céus se abriram e de lá jorram rios de água, que durante muito tempo ficou em suspenso,  em milhões de nuvens carregadinhas de vapor de água.

Por aqui, neste finisterra da Euroásia, já andavam a dizer que estávamos a entrar em seca só porque estivemos uns dois meses sem chuva, e daqui a meia dúzia de dias, vão ter de abrir as comportas das barragens para deixar esvair uns milhões de litros de água que vão assim inundar os campos e as vilas dos baixios.
Se me perguntam o que prefiro, o sol, o bom tempo, os dias em que a luz é tão forte que trespassa os ramos das árvores e nos deixa deslumbrados. Mas em tempo dela, é a chuva, mil vezes a chuva ao vento. Desse é que não gosto mesmo nada.
Parece que todo o mundo reclama algo do tempo, ora é a neve inesperada, como no Colorado, ou as chuvas que nos deixam com ruas inundadas, casas velhas que deixam passar água pelos telhados, ventos fortes que arrancam árvores centenárias, com troncos e raízes que não era suposto saírem assim da terra, tudo está às avessas...será que sou apenas eu a notar ou será que tudo está a mudar demasiado depressa?
É o futuro que nos espera, os problemas e sequelas do brutal aquecimento global...e isto é apenas o início.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

SOLIDÃO

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo ... Isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar ... 
Isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos ... Isto é equilíbrio.

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida ... 
Isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado ... Isto é circunstância.

Solidão é muito mais do que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma ...

FRANCISCO BUARQUE DE HOLANDA

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Pensar e sentir

A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O amor

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Os que amam profundamente

Os que amam profundamente, jamais envelhecem; podem morrer de velhice, mas morrem jovens. O amor é a imagem de Deus, mas não uma imagem da vida. É, isto sim, a verdadeira essência de toda a natureza divina, que fulga em bondade.

As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.






Cartas a Sandra

Mais um autor com pelo menos um alter-ego. Vergílio Ferreira nunca ultrapassou a morte da mulher a quem tanto amava e passou a viver à espera do fim, como uma inevitabilidade, como fim previsto e até ansiado.
Paulo (alter-ego do autor) passa os últimos dias da sua velhice escrevendo cartas a Sandra, esposa há muito falecida, recordando a sua vida em comum bem como a sua relação com Xana, a filha que muito cedo abandonou a casa de família. É um testemunho pungente,  desesperado, de um homem apaixonado a quem faltou vida para desafiar a morte da mulher amada. Para Paulo o tempo terminara na morte de Sandra. Todavia, para além desse facto ficou o amor, este  perdurou para lá morte de Sandra, mas com uma dor pungente no coração, da qual o autor não mais se conseguiu afastar, ela permanece lá e vai cada dia ficando mais funda, mais cravada no seu coração. À procura de paz na memória de Sandra, Paulo encontra mais e mais sofrimento. Essa memória é sempre incompleta porque é por Sandra, por toda ela que Paulo clama. Pelo seu espírito, pelo seu amor mas também pelo seu corpo e pela sua vida. A melancolia com que escreve,  uma imensa solidão, um perpetuar da falta que Sandra lhe faz, ele não sabe viver sem ela, vive para o amor que ainda mora dentro dele e que o vai alimentando a tortura, no mar de extrema solidão que se tornou a vida de Paulo.Cartas a Sandra constitui, por outro lado, um documento importantíssimo para compreender a personalidade do autor, que vêm em  sequência ao romance auto-biográfico Para Sempre. As cartas, assinadas por Paulo,  são o retrato de uma vida sofrida pela perda dos pais na infância, os anos da universidade, a idade de toda a esperança e força , mais tarde o facto da filha ter tão cedo abandonado a casa paterna, e depois o trágico desaparecimento de Sandra.  O que ficou foi apenas a longa e dura solidão, que irá marcar de forma indelével o final da vida do autor.
O amor por Sandra irá acompanhá-lo até ao fim,  amor quase obsessivo, excessivo e demasiado sofrido, que é simultâneamente tortura e tábua à qual Vergílio/Paulo se agarra ainda à vida, apenas para recordar Sandra.

Vergílio é mesmo assim, muito intímo com a sua alma, com a sua capacidade metafísica que transcende tudo quanto nos deixou nos seus escritos. É como se nos víssemos ao espelho, tal a dor que sente, que sem querer sofremos com ele, e nos reconhecemos em cada palavra. Vergílio nunca tem medo de mostrar o que sente, a dor é tão forte, tão pungente que é como um grito de absoluta solidão. Ele está só, sem Sandra e com ele apenas as memórias desse amor que partiu e o deixou só.
O amor é mesmo assim, nós vivemos nele e para ele, bebemos do mesmo copo, olhamos a mesma paisagem,  e quando nos falta o objecto de amor, damos connosco perdidos num mar de tristeza e angústia, passamos a arrastar-nos na vida, esperando apenas que a vida termine e que o sofrimento termine. É isso que nos mostra Vergílio Ferreira, autor que leio e releio sem me cansar, com quem me identifico em muito do que sente e que tem reflexo em mim, “havia em ti divindade bastante para estar certo o que me doesse”…

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


sábado, 24 de setembro de 2011

É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas




“É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
Dificílimo contar.
Olhei pra você fixamente por instantes.
Tais momentos são meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade”.



Clarice Lispector