sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A hora do cansaço


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos,
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.




Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Outono






Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

                                  Miguel Torga

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Canção de Outono






Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...



Cecília Meireles, Via Pensador

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Canção de Outono







No entardecer da terra,

O sopro do longo outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E mesmo o que hoje sou
Amanhã direi: quem dera
Volver a sê-lo! mais frio.
O vento vago voltou.

1910
Fernando Pessoa (1888-1935)

Encontrei aqui : http://dispersamente.blogspot.pt/2010/

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Pássaro Azul






há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

(Charles Bukowski)

domingo, 16 de novembro de 2014

Cada um se vê à sua maneira







Cada dia me dou conta de que o meu caminho tem sido penoso, mas no meio de tanta farpa, de tanta pedra que me tem magoado pés, canelas, alma, coração, também  em simultâneo, tanta coisa boa me tem acontecido. Nem sei se  o saldo não será mais para o positivo do que para as pedras...

O meu despertar como pessoa, foi muito cedo. 

Quando eu tinha os meus 9 anos, comecei  a ler, tudo desde a colecção azul, condessa de Ségur, até aos Almanaques do Patinhas ou do Donald, lia  as bandas  desenhadas do Major Alvega, Silver Surfer, Mascarilha, tudo o que eu arranjava, comprado ou trocado ( dava cinco lidos e trazia um para ler... bom negócio para quem comprava, péssimo para nós, os miúdos que liam ou devoravam). Gastava  boa parte do meu dinheiro em livros e fazia uma série de coisas para ganhar. Desde ajudar com os irmãos, ir às compras, minha mãe era modista, não a tempo inteiro, mas em part-time, já que fazia isso às escondidas de meu pai que não queria que trabalhasse....   ajudava-a nas pequenas coisas que podia,  coser botões, alinhavar, tirar linhas de alinhavo depois de  a peça estar pronta,  rematar as pontas das linhas e chuliar as bainhas, e as  laterais dos tecidos....enfim, (coisas que hoje me são bem úteis) e assim tinha sempre um pecúlio para poder investir no que mais gostava.


Apareceu entretanto, nos arredores da vila onde eu morava, a biblioteca itinerante...e quem supervisionava a carrinha, era uma pessoa que amava a leitura, a cultura. 
Assim, após a conversa da inscrição onde me foi perguntado, o que quer levar para ler ( eram duas semanas até à próxima visita), e eu lá ia respondendo,  quero saber tudo sobre a boa literatura americana, quero ler Hamlet, quero ler Dickens, etc....e assim, enquanto durou esse período, longo, já que foram vários anos, li muito,  tudo o que qualquer ser humano deveria ler para ter  ases para se considerar gente. Mas o melhor viria a seguir. 

Só os livros nos trazem o sonho. Ler é como viajar, sem sair do local onde estamos, sentados, encostados, deitados. 
Depois, já com alguma bagagem, conheci o tal amigo, que me viu com uma sacada de livros, a uma sábado de manhã, quando ele se apeava do comboio vindo lá da Marinha e eu ia comprar o pão que minha mãe me pedira. 
Achou piada  à minha resposta...onde vai e o que vai fazer com todos esses livros. A minha resposta, lê-los, devorá-los, tirar frases para fixar, para recordar mais tarde, sonhar.
Tive a sorte de ter amigos de grande qualidade intelectual e humana, alguns, poucos,  um em particular.

E ali, naquele momento,  arranjei, um grande orientador de leituras. Assim, aos 13 anos estava a ser lançada a Tolstoi,  Fiódor Dostoiévski, Constantin Virgil Gheorghiu .Léon Uris,  Marx...passando por Hemingway, Miller, Steinbeck e tantos outros.

Foi a partir daí que a "mania" de coleccionar  coisas, passou a ser uma qualidade, a de criar a minha própria biblioteca.

Hoje sei que sou diferente da maioria das pessoas, não ligo grandemente a coisas materiais, gosto de ter o quanto baste, nunca tive ambições de riquezas...posso não ter tido grandes felicidades, até mesmo a nível familiar, mas o espanto que apenas um livro transmite, aí eu bato todos os que conheço. 
Nesse ponto, a minha vida foi um deslumbramento.

sábado, 15 de novembro de 2014

that seems to have been written for me alone




One of my writers of election!

Um dos meus escritores de eleição!


"A book may lie dormant for fifty years or for two thousand years in a forgotten corner of a library, only to reveal, upon being opened, the marvels of the abysses that it contains, or the line that seems to have been written for me alone. In this respect the writer is not different from any other human being: whatever we say or do can have far-reaching consequences."



Tradução minha: 

Um livro pode permanecer adormecido por cinquenta ou dois mil anos, num canto esquecido de uma biblioteca. apenas para revelar, depois de aberto, as maravilhas do abismo que contêm, ou aquela linha que parece ter sido escrita expressamente para mim.
E a este respeito, o escritor não é diferente dos outros seres humanos: o que quer que seja que digamos ou façamos, pode ter consequências  muito para além do previsível.

Marguerite Yourcenar, pseudonym for Marguerite Cleenewerck de Crayencour

(1903 - 17 de Dezembro de 1987 (84 anos))
Belgian-born French Novelist and Essayist

Autora de uma dos meus livros de eleição : Memórias de Adriano ( quase uma bíblia para mim).

os seres humanos não nascem para sempre

“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” 




(Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

Pior do que uma voz que cala/É um silêncio que fala




Imagem: Via Twitter

Palavras: via Pensador

Simples. Rápido. E quanta força. Imediatamente me veio a cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis, pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.


Um telefone mudo. Um e-mail que não chega. Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca. Silêncios que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas. Quantas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão. O perdão não vem, nem um beijo, nem uma gargalhada para acabar com o clima de tensão. Só ele permanece imutável, o silêncio, a ante-sala do fim. 

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas que a gente não quer ouvir, pois ao menos as palavras que são ditas indicam uma tentativa de entendimento. Cordas vocais em funcionamento articulam argumentos, expõem suas queixas, jogam limpo. Já o silêncio arquiteta planos que não são compartilhados. Quando nada é dito, nada fica combinado. 

Quantas vezes, numa discussão histérica, ouvimos um dos dois gritar: "diz alguma coisa, diz que não me ama mais, mas não fica aí parado me olhando". É o silêncio de um mandando más notícias para o desespero do outro. 

É claro que há muitas situações em que o silêncio é bem-vindo. Para um cara que trabalha com uma britadeira na rua, o silêncio é um bálsamo. Para a professora de uma creche, o silêncio é um presente. Para os seguranças dos shows do Sepultura, o silêncio é uma megasena. Mesmo no amor, quando a relação é sólida e madura, o silêncio a dois não incomoda, pois é o silêncio da paz. O único silêncio que perturba é aquele que fala. E fala alto. É quando ninguém bate a nossa porta, não há recados na secretária eletrônica e mesmo assim você entende a mensagem.

Martha Medeiros

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Music is my escape





I love this!!!

http://youtu.be/lizcehKjLzY

Imagem via Twitter

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
de matar galinhas
Porém são capazes
de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
à roupa do seu corpo
aquela roupa
que depois da chuva secou no corpo
porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
a roupa
que depois do suor não foi lavada
porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
assim nos foi imposto
e não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe


 'Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes tu rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás.
Fica.
Para sempre.'

Vergilio Ferreira

sábado, 13 de setembro de 2014

Perguntas, Martha Medeiros



Perguntas

Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito?
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém...
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali?
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado?
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV...
E você gelou porque o bom daquele momento já passou...
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue?
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso?
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo?
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa?
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou?
Para essas perguntas existem muitas respostas...
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si...
Mas sim o sentimento...
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal...
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra...
Então, qual a moral disso tudo?
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa...
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje!
Não deite com mágoas no coração.
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz!
E comece com você mesmo!!!

 Martha Medeiros