segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Pássaro Azul






há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

(Charles Bukowski)

domingo, 16 de novembro de 2014

Cada um se vê à sua maneira







Cada dia me dou conta de que o meu caminho tem sido penoso, mas no meio de tanta farpa, de tanta pedra que me tem magoado pés, canelas, alma, coração, também  em simultâneo, tanta coisa boa me tem acontecido. Nem sei se  o saldo não será mais para o positivo do que para as pedras...

O meu despertar como pessoa, foi muito cedo. 

Quando eu tinha os meus 9 anos, comecei  a ler, tudo desde a colecção azul, condessa de Ségur, até aos Almanaques do Patinhas ou do Donald, lia  as bandas  desenhadas do Major Alvega, Silver Surfer, Mascarilha, tudo o que eu arranjava, comprado ou trocado ( dava cinco lidos e trazia um para ler... bom negócio para quem comprava, péssimo para nós, os miúdos que liam ou devoravam). Gastava  boa parte do meu dinheiro em livros e fazia uma série de coisas para ganhar. Desde ajudar com os irmãos, ir às compras, minha mãe era modista, não a tempo inteiro, mas em part-time, já que fazia isso às escondidas de meu pai que não queria que trabalhasse....   ajudava-a nas pequenas coisas que podia,  coser botões, alinhavar, tirar linhas de alinhavo depois de  a peça estar pronta,  rematar as pontas das linhas e chuliar as bainhas, e as  laterais dos tecidos....enfim, (coisas que hoje me são bem úteis) e assim tinha sempre um pecúlio para poder investir no que mais gostava.


Apareceu entretanto, nos arredores da vila onde eu morava, a biblioteca itinerante...e quem supervisionava a carrinha, era uma pessoa que amava a leitura, a cultura. 
Assim, após a conversa da inscrição onde me foi perguntado, o que quer levar para ler ( eram duas semanas até à próxima visita), e eu lá ia respondendo,  quero saber tudo sobre a boa literatura americana, quero ler Hamlet, quero ler Dickens, etc....e assim, enquanto durou esse período, longo, já que foram vários anos, li muito,  tudo o que qualquer ser humano deveria ler para ter  ases para se considerar gente. Mas o melhor viria a seguir. 

Só os livros nos trazem o sonho. Ler é como viajar, sem sair do local onde estamos, sentados, encostados, deitados. 
Depois, já com alguma bagagem, conheci o tal amigo, que me viu com uma sacada de livros, a uma sábado de manhã, quando ele se apeava do comboio vindo lá da Marinha e eu ia comprar o pão que minha mãe me pedira. 
Achou piada  à minha resposta...onde vai e o que vai fazer com todos esses livros. A minha resposta, lê-los, devorá-los, tirar frases para fixar, para recordar mais tarde, sonhar.
Tive a sorte de ter amigos de grande qualidade intelectual e humana, alguns, poucos,  um em particular.

E ali, naquele momento,  arranjei, um grande orientador de leituras. Assim, aos 13 anos estava a ser lançada a Tolstoi,  Fiódor Dostoiévski, Constantin Virgil Gheorghiu .Léon Uris,  Marx...passando por Hemingway, Miller, Steinbeck e tantos outros.

Foi a partir daí que a "mania" de coleccionar  coisas, passou a ser uma qualidade, a de criar a minha própria biblioteca.

Hoje sei que sou diferente da maioria das pessoas, não ligo grandemente a coisas materiais, gosto de ter o quanto baste, nunca tive ambições de riquezas...posso não ter tido grandes felicidades, até mesmo a nível familiar, mas o espanto que apenas um livro transmite, aí eu bato todos os que conheço. 
Nesse ponto, a minha vida foi um deslumbramento.

sábado, 15 de novembro de 2014

that seems to have been written for me alone




One of my writers of election!

Um dos meus escritores de eleição!


"A book may lie dormant for fifty years or for two thousand years in a forgotten corner of a library, only to reveal, upon being opened, the marvels of the abysses that it contains, or the line that seems to have been written for me alone. In this respect the writer is not different from any other human being: whatever we say or do can have far-reaching consequences."



Tradução minha: 

Um livro pode permanecer adormecido por cinquenta ou dois mil anos, num canto esquecido de uma biblioteca. apenas para revelar, depois de aberto, as maravilhas do abismo que contêm, ou aquela linha que parece ter sido escrita expressamente para mim.
E a este respeito, o escritor não é diferente dos outros seres humanos: o que quer que seja que digamos ou façamos, pode ter consequências  muito para além do previsível.

Marguerite Yourcenar, pseudonym for Marguerite Cleenewerck de Crayencour

(1903 - 17 de Dezembro de 1987 (84 anos))
Belgian-born French Novelist and Essayist

Autora de uma dos meus livros de eleição : Memórias de Adriano ( quase uma bíblia para mim).

os seres humanos não nascem para sempre

“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” 




(Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

Pior do que uma voz que cala/É um silêncio que fala




Imagem: Via Twitter

Palavras: via Pensador

Simples. Rápido. E quanta força. Imediatamente me veio a cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis, pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.


Um telefone mudo. Um e-mail que não chega. Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca. Silêncios que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas. Quantas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão. O perdão não vem, nem um beijo, nem uma gargalhada para acabar com o clima de tensão. Só ele permanece imutável, o silêncio, a ante-sala do fim. 

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas que a gente não quer ouvir, pois ao menos as palavras que são ditas indicam uma tentativa de entendimento. Cordas vocais em funcionamento articulam argumentos, expõem suas queixas, jogam limpo. Já o silêncio arquiteta planos que não são compartilhados. Quando nada é dito, nada fica combinado. 

Quantas vezes, numa discussão histérica, ouvimos um dos dois gritar: "diz alguma coisa, diz que não me ama mais, mas não fica aí parado me olhando". É o silêncio de um mandando más notícias para o desespero do outro. 

É claro que há muitas situações em que o silêncio é bem-vindo. Para um cara que trabalha com uma britadeira na rua, o silêncio é um bálsamo. Para a professora de uma creche, o silêncio é um presente. Para os seguranças dos shows do Sepultura, o silêncio é uma megasena. Mesmo no amor, quando a relação é sólida e madura, o silêncio a dois não incomoda, pois é o silêncio da paz. O único silêncio que perturba é aquele que fala. E fala alto. É quando ninguém bate a nossa porta, não há recados na secretária eletrônica e mesmo assim você entende a mensagem.

Martha Medeiros

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Music is my escape





I love this!!!

http://youtu.be/lizcehKjLzY

Imagem via Twitter

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
de matar galinhas
Porém são capazes
de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
à roupa do seu corpo
aquela roupa
que depois da chuva secou no corpo
porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
a roupa
que depois do suor não foi lavada
porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
assim nos foi imposto
e não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe


 'Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes tu rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás.
Fica.
Para sempre.'

Vergilio Ferreira

sábado, 13 de setembro de 2014

Perguntas, Martha Medeiros



Perguntas

Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito?
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém...
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali?
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado?
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV...
E você gelou porque o bom daquele momento já passou...
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue?
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso?
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo?
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa?
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou?
Para essas perguntas existem muitas respostas...
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si...
Mas sim o sentimento...
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal...
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra...
Então, qual a moral disso tudo?
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa...
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje!
Não deite com mágoas no coração.
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz!
E comece com você mesmo!!!

 Martha Medeiros




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Já não te amo como no primeiro dia



Gosto muito de algumas mulheres que não estão entre nós, melhor dizendo, dos seus escritos, as palavras que  deixaram e viraram eternidade. Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir, Virginia Wolf, entre outras.
Hoje um pequeno texto de Duras... mas não do seu  talvez, mais famoso romance, L'Amant (O amante, passado na antiga colónia francesa da Indochina( hoje Vietname), banhada pelo Mecong, um dos maiores rios do mundo.  Este texto, é de outro livro, precisamos ler muito e ler quem  nos faz sentir. Duras tem esse condão.


"Já não te amo como no primeiro dia. Já não te amo.

No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.

Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair. Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem.

Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável. É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.

E tu não sabes."

marguerite duras
textos secretos
trad. tereza coelho
quetzal
1999

Recomendo vivamente, para quem como eu, luta por manter acesa a chama desse amor, bem viva e crepitante!. Não amamos como no primeiro dia, mas amamos mais, porque  mais do que o amor, cresce a paixão, a amizade, a cumplicidade e tudo isso é mais do que amor. Aquilo que por vezes, apenas  numa troca de olhares, e está tudo dito.

Espero que gostem. 


Imagem: reprodução via Google imagens


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Bom fim de semana

 Bom fim de semana para quem passa por aqui!!



A diva  teria completado ontem oitenta e oito anos, se fosse viva e não  tivesse cruzado com quem  a usou e matou.


http://youtu.be/-7mntyrW3HU

Criação e ideias

Hoje, mais uma vez, esta página é mais  o ouvido do psicólogo, do que o teclado que uso para formalizar as palavras que  aqui vou escrevendo.

De que serve sermos inteligentes, criativos, ter ideias, saber muito mais do que o comum dos mortais e....deixarmo-nos agrilhoar, fechar, travar a torrente criativa que há em nós? Como chegamos nós a esse estado, a essa situação??
Como deixamos que uma  tal situação se passe connosco, vá aumentando, tomando conta de nós, travando a torrente  que continua a fluir, está lá,  jorra cor, brilho, ideias...e nós tapamos esse jorro com um tampão, escondemos a fonte que brota e fingimos que secou???

Há anos que não faço as coisas de que mais gosto, para além da escrita, das artes manuais, da jardinagem, da fotografia.  Criar não só é  captar o momento, aquela fracção de segundo da fotografia, memória do momento, ou apenas para mais tarde recordar, é tão mais do que isso...

Adoro barro, trabalhar e criar com as mãos,  (meu pai e meu avô, criavam coisas lindas com barro, vermelho e preto...) adoro trabalhar papel, criar com papel  usado e fazer  novas coisas...
Adoro pintar, desenhar, fazer  máscaras, caixas, pratos, pintar vidro....
Como podemos nós criar, quando temos o jantar para fazer? A roupa para colocar a lavar e depois estender, compras para fazer, cão para passear...coisas para arrumar e tantos milhares de pequenas tarefas que, só quem as executa, as vê??

Como sair desta masmorra sem grades??



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Cecília Meireles, poesia

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


( Cecília Meireles )
(Obra poética, Volume 4, Biblioteca luso-brasileira: Série brasileira. Companhia J. Aguilar Editora, 1958, p. 10)